Sessão remota, gabinete cheio de privilégios e conta cada vez mais salgada: enquanto o contribuinte trabalha para pagar impostos, parlamentares seguem gastando como se dinheiro público fosse infinito
Parece piada, mas é dinheiro público. E, como sempre, quem paga a conta não participa da festa.
Os gastos dos parlamentares com a chamada Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), o popular “cotão parlamentar”, já ultrapassam R$ 123 milhões em 2026. A verba pode bancar uma verdadeira coleção de despesas — de passagens aéreas e telefonia a combustíveis, veículos e divulgação da atividade parlamentar.
E o detalhe que torna a história ainda mais indigesta: em agosto, a Câmara dos Deputados não teve sessões presenciais obrigatórias, com atividades parlamentares realizadas de forma remota. Mesmo assim, o cotão continuou correndo solto, consumindo cerca de R$ 1,6 milhão.
Ou seja: Brasília pode até ficar longe das excelências, mas aparentemente fica bem perto do cartão de despesas.
PUBLICIDADE: MAIS DE R$ 50,6 MILHÕES
Se existe uma área em que os parlamentares demonstram disposição para gastar, é na promoção do próprio mandato.
Segundo os números apresentados, já foram desembolsados mais de R$ 50,6 milhões em publicidade parlamentar somente neste ano.
É dinheiro do contribuinte utilizado para divulgar a atuação de quem já possui mandato, estrutura pública, assessores, redes sociais institucionais e espaço garantido na vida política nacional.
A pergunta incômoda é inevitável: quanto dessa propaganda é efetivamente prestação de contas e quanto serve para manter a imagem política das excelências em evidência?
Porque, pelo tamanho da conta, parece que alguns mandatos estão concorrendo ao Oscar da autopromoção.
CARRÕES NA CONTA DO POVO
E tem mais.
Os parlamentares também não precisam exatamente abrir a carteira para manter seus confortáveis deslocamentos.
Os gastos com veículos já ultrapassaram R$ 26,8 milhões.
Sim: enquanto milhões de brasileiros enfrentam transporte público precário, combustível caro e orçamento apertado, os representantes do povo contam com estrutura custeada pelo erário para circular.
E, obviamente, carrão sem combustível não anda.
MAIS R$ 15,4 MILHÕES PARA ABASTECER AS EXCELÊNCIAS
Somente com combustíveis, os gastos já superam R$ 15,4 milhões.
É o chamado pacote completo: o carro é público, a despesa é pública, o combustível é público — e o contribuinte fica com a parte mais importante da operação: pagar.
No final das contas, a matemática é simples.
Mais de R$ 123 milhões no cotão. Mais de R$ 50,6 milhões em publicidade. Mais de R$ 26,8 milhões em veículos. Mais de R$ 15,4 milhões em combustíveis.
Enquanto isso, o discurso oficial costuma vir embalado em palavras como “eficiência”, “economia” e “responsabilidade com o dinheiro público”.
O contribuinte, entretanto, talvez esteja esperando descobrir em qual gaveta ficou guardada essa tal responsabilidade.
SE A SESSÃO É REMOTA, A DESPESA TAMBÉM NÃO PODERIA SER?
O episódio de agosto levanta outro questionamento.
Se não houve necessidade de presença física obrigatória em Brasília e as atividades puderam ocorrer remotamente, é razoável cobrar transparência sobre a necessidade e a proporcionalidade das despesas custeadas pela CEAP durante o período.
Não se trata de afirmar que toda despesa é irregular — isso exigiria análise individual dos pagamentos, notas fiscais, beneficiários e finalidade de cada gasto.
Mas é perfeitamente legítimo perguntar:
se a tecnologia permite trabalhar à distância, por que a conta do contribuinte continua viajando em primeira classe?
O problema não é apenas quanto se gasta. É também a sensação de que, para algumas autoridades, a austeridade é sempre uma recomendação para os outros.
No Congresso, aparentemente, o aplicativo pode substituir a presença física.


